Para mim era claro, eu queria ser veterinário! Mas não era isso; depois eu descobri que o que eu realmente queria ser era biólogo. 

Até o momento em que eu vi pela primeira vez uma cabine de avião...

    Para mim era claro, eu queria ser veterinário! Mas não era isso, depois eu descobri que o que eu realmente queria ser era biólogo, pois as histórias de onças que o meu avô me contava à noite me faziam perder o sono — não pelo medo, mas por vontade de vê-las na natureza. Os lobos-guarás que eu via na infância nos campos, a caminho da fazenda — hoje eu tenho desejo de revê-los soltos e livres na natureza, e não em jaulas no zoológico. Lugar esse que eu enchia o saco do meu pai depois de velho para que me levasse a fim de ver os animais. Isso me fazia ficar pensando o dia todo em quão maravilhosa a nossa fauna é. Para mim era claro, eu quero realmente ser biólogo! Até que num determinado dia eu fiz uma viagem com o meu primo Darcy para Araguaína-TO. Na escala em Imperatriz-MA, quando eu vi a cabine do avião, fiquei impressionado com a quantidade de botões que havia ali e fiquei matutando na minha cabeça: “Nossa, deve ser muito legal conhecer cada botão desses e saber pra que cada um serve”. O meu futuro, profissional e pessoal, naquele momento, daria uma reviravolta e eu decidi que queria ser um piloto de avião.

    O voo sempre me fascinou. Os passarinhos que meu pai criava, depois a beleza dos insetos que eu coletava e colecionava. E por fim eu mesmo, voando, voando em uma máquina que poderia me fazer sentir e ver o que as aves viam e sentiam. O voo me levando a todos os cantos do Brasil.  Ainda hoje, depois de mais de oito anos desde que tirei o meu primeiro brevê, ainda olho para baixo e imagino o que de especial ainda tem lá embaixo, o que de raro há para ser descoberto e o que de belo a natureza ainda nos esconde. Pronto, trilhei minha carreira para ser piloto. Fiz faculdade na área, fiz minhas horas iniciais de voo, tirei meu brevê e fui atrás de trabalhar. Saibam que é uma área muito concorrida e muito difícil de se encontrar algo, não achem que é uma profissão cheia de glamour ou que tem um empresário em cada esquina te oferecendo um bom avião para você voar e com salários altos e bem recheados de regalias. A realidade bateu à minha porta e constantemente me afligia, para onde eu vou?

    Deus colocou um de seus muitos anjos que já apareceram no decorrer da minha vida e me apresentou um comandante que voava naquela época para o Governo do Estado do Tocantins. Mesmo sem ganhar nada em troca e sem sequer me conhecer direito, com algumas palavras ele me indicou para um serviço em Palmas. Eu fui para lá com a cara e a coragem, sem conhecer ninguém, sem amigos e sem família, mas comecei logo a voar bastante, a ganhar horas de voo tão necessárias para a minha próxima carteira e que era o próximo passo na minha vida, pois só assim eu poderia realmente me tornar um profissional na área e daí atuar no comando de aeronaves melhores e mais avançadas. E ao mesmo tempo, com esses voos, eu comecei a conhecer lugares bem singulares e isolados. Até que um dia fomos a um lugar chamado Parque Estadual do Cantão, localizado no estado do Tocantins, a aproximadamente 257 quilômetros de Palmas.

   Até aquele momento na minha vida, eu nunca havia  experimentado uma sensação tão intensa ou sequer parecida com aquela, de estar ali e me sentir como um desbravador das nossas matas e terras inexploradas. Naquele dia, nós pousamos em uma pista pequena, de terra, que mais parecia areia muito fofa. Inclusive foi bem difícil controlar o avião durante a corrida do pouso. Em poucos instantes um jipe veio nos buscar. Andamos por cerca de 40 minutos por uma estrada altamente precária e inóspita, e foi ali que eu pude ter um deslumbre de como o nosso Brasil poderia ter sido algumas centenas de anos atrás. A cada quatrocentos metros eu via um casal ou uma família de mutuns-de-penacho (Crax fasciolata) na nossa frente, a cada momento caía um inseto diferente na minha cabeça. Não podíamos sair sozinhos à noite pelas instalações, devido ao risco iminente de ataque de onças, percebidos por câmeras trap (que disparam a partir do movimento) ao redor do hotel. Inicialmente instaladas para fotografar uma possível onça rondando no período da noite, mas por fim as lentes registraram cinco indivíduos diferentes. Eu estava no paraíso, mas com um problema: eu estava sem uma câmera fotográfica, mas foi no dia seguinte que eu desejei com todas as minhas forças ter uma! Eu acabara de acordar e pude ver uma família de pequenos pirarucus (Arapaima gigas), um dos maiores peixes de água doce do mundo, nadando no rio logo abaixo dos quartos do hotel. Vi também um jacaré e milhares de garças caçando. Pensei comigo mesmo: “Quero ter uma câmera para fotografar e registrar esses bichos maravilhosos, por onde eu passar”.

    Em 2010, já com a minha carteira de piloto comercial em mãos, eu me mudei para Fortaleza-CE, motivado por um possível trabalho e pela minha esposa, na época namorada. Ali, depois de conseguir o dito trabalho, pude pela primeira vez na minha vida comprar a minha primeira câmera, uma Canon SX30is com incríveis 35x de zoom. Para mim era inacreditável, fora do real. Eu a princípio tirava fotos de aviões, pessoas, tudo o que via pela frente, pois a fotografia com o zoom e com o macro conseguem te levar a mundos totalmente inimagináveis e diferentes. Fui tomando gosto pela fotografia de insetos, especialmente aranhas e os mais coloridos, que um dia eu matava, hoje os tenho em foto e em toda sua plenitude de beleza, livres na natureza. Posteriormente, eu estava de férias e olhei para uma fruteira na chácara da minha família em Planaltina-DF. Ali vi um passarinho azul, totalmente diferente de tudo o que eu já tinha visto. Corri, peguei a câmera e fotografei, mas tudo de muito longe, mesmo com o super zoom da câmera eu não consegui fazer uma foto à altura do bicho, mas fiquei com aquilo na cabeça: “Nossa, um bicho desses tão colorido no quintal de casa e em mais de vinte anos eu nunca tinha visto, como pode?”. Antes eu saía bem cedo para fotografar insetos, mas agora estava com o olhar e a atenção voltados também para cima, para ver se eu encontrava algum pássaro diferente. Foi quando me vi diante de um grande dilema: o que eu vou fazer agora? Eu não tenho condições de fotografar aves e insetos ao mesmo tempo, porque se eu ficar olhando para baixo procurando insetos, a qualquer sinal de movimento vou olhar para cima à procura de aves. Eu não estava conseguindo fazer nenhum dos dois bem feito. Resolvi então pesquisar sobre ambos os assuntos e encontrei um site chamado www.wikiaves.com.br, onde achei o danado do passarinho azul, que ainda era um enigma de outro mundo para mim e daí descobri que era um saí-andorinha (Tersina viridis) macho.

1ª Foto em 2011

Saí Andorinha (Tersina viridis)

DE PILOTO A FOTÓGRAFO

"Fotografia de natureza para mim é uma religião e um estilo de vida. Uma religião que eu sigo sem adoração, sem idolatria e sem deveres a cumprir, basta ser feliz."

    Desde criança, eu sempre fui ligado à natureza. Algumas vezes contemplando e outras vezes sendo de certa forma uma criança cruel, mas na época isso era um jeito de gostar. Meu pai criava passarinhos e eu os achava lindos, sempre ficava olhando os detalhes das penas, das patas, das características do canto de cada um e às vezes suas belas cores. Mas um certo dia ele soltou uma família de canários-da-terra (Sicalis flaveola) que estavam com alguns filhotes. Eu fiquei completamente aflito: ”Não solta, eles vão embora e nunca mais vão voltar”, eu disse, e a vontade de chorar era imensa. Mas no momento em que eu os vi fora da gaiola e eles, para a minha surpresa, não foram embora por conta dos filhotinhos, que ainda estavam muito pequenos e ainda precisavam dos seus pais, isso foi decisivo para mim. Eles me demonstraram o quanto a natureza é perfeita e como os laços familiares são fortes. Eu me dei conta ali, naquele momento, de que eu havia ficado mais feliz em vê-los soltos e livres do que tê-los aprisionados numa gaiola, pelo simples fato de falar que eles eram “nossos”. Deste momento em diante, eu comecei a entender que a natureza era perfeita, era linda e o mais importante: para ser tudo isso, ela precisava ser livre!

    Eu já tive coleções de insetos e borboletas que eu mesmo coletava, e mais uma vez a realidade da “crueldade” martelava a minha consciência. Um dia, uma professora de Biologia da minha escola na sétima série, chamada Luciana, me chamou a atenção e me disse: “Você sabia que você pode estar causando um desequilíbrio ambiental, Thiago?”. No dito momento eu quis empalhar ela também, mas isso ficou martelando a minha cabeça o dia todo e se repetindo a todo momento: “Será que o que eu estou fazendo é certo, matar esses bichos só pelas suas cores? Por que eles são tão bonitos e quando eu os coletos eles ficam meio apagados e sem vida?”. Isso me maltratava diariamente, até em dado momento decidi que o que eu estava fazendo com aqueles insetos era ainda pior do que um dia eu já havia feito aos pássaros. Aí eu parei de coletá-los e doei toda a minha coleção para o laboratório de uma escola, e nunca mais eu consegui sequer matar uma formiga que seja.

    Eu fiquei super contente em descobrir e saber que bicho era aquele, mas esse site mudaria a minha vida de um jeito que eu jamais teria imaginado. Eu comecei a passar horas e horas dos meus dias olhando foto por foto, baixando sons dos cantos, aprendendo sobre suas famílias, suas distribuições e muito mais. Conheci bichos que eu jamais imaginei um dia existirem, bichos fora do comum. Foi aí que começou a minha paixão por fotografia de aves. Eu fui atrás do assunto nas redes, em fóruns e artigos científicos, mas ficou realmente evidente de que ali seria muito mais do que um hobby para mim quando encontrei um artigo na internet falando do hoje amigo Ciro Albano (http://www.wikiaves.com.br/perfil_ciroalbano) em mais uma de suas “aventuras” — diga-se de passagem trabalho mesmo, na estonteante e conhecida Chapada Diamantina. A foto de autoria dele, que acompanhava o artigo sobre o beija-flor-de-gravata-vermelha (Augastes lumachella), me fez questionar: “Meu Deus, existe um bicho desses? E uma foto com uma qualidade tão boa como essa, como pode?”. Nesse instante um bichinho altamente contagioso de observador e de fotógrafo de aves me contaminou. Agora já era!

    Depois disso eu já troquei meu equipamento, conheci pessoas muito importantes tanto na vida de passarinheiro quanto na minha vida pessoal, que têm um peso imenso e se tornaram verdadeiros membros de uma grande família, com uma paixão pela natureza e em especial pelas aves em comum. Comecei a procurar bichos raros, lugares muito singulares e específicos por seus animais endêmicos. Mesmo nas minhas viagens a trabalho, eu sempre fui atrás de melhorar as minhas fotos, atrás das raridades. Lia bastante sobre fotografia, sobre como me aproximar mais dos animais sem afugentá-los e, posteriormente, sobre edição de imagens, que hoje é uma das minhas paixões também, quase tão legal quanto estar no mato capturando as imagens, paixão essa que culminou em um pequeno tutorial, que está disponível neste site para download gratuito.

    Enfim, espero que gostem do meu trabalho. Espero que, assim como eu, depois deste leve resumo da minha vida de quase veterinário a piloto e posteriormente a fotógrafo de aves nas horas vagas, que você corra atrás dos seus sonhos e aspirações, pois o que você faz com amor e paixão você faz bem-feito. Hoje em dia, eu tenho várias fotos divulgadas em livros, guias de campo — algumas até venceram concursos pela internet. Mas o mais importante é que eu nunca faço uma foto para ganhar dinheiro ou fama, eu as faço para mim e para a minha satisfação pessoal. Aprecio dos prazeres que aquela foto me proporciona, desde os estudos preliminares do bicho, da organização da viagem para encontrá-lo e, por fim, a realização da foto, fechando o ciclo. Um grande abraço, obrigado por lerem e estarem no meu site e sejam livres, pois a natureza é livre e nós fazemos parte dela! Muito obrigado.

Em 2010 eu me mudei para

Fortaleza e comprei a minha primeira câmera fotográfica.

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